Se você quer as respostas certas, pare de fazer as perguntas erradas (por Hpcharles)



  
I sell the things you need to be
I'm the smiling face on your T.V.
Oh, I'm the cult of personality 
I exploit you still you love me?
I told you one and one makes three
Oh, I'm the cult of personality
“Cult of personality” (Living Colour)
      “Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros, 
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.”
Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
 
Semana que passou a Tati deixou um post em seu Facebook convidando às pessoas para que deixassem perguntas que seriam, oportunamente, respondidas em vídeo. Ela não me disse, mas a conhecendo como conheço, sei que tal proposta tem, como finalidade precípua, oferecer um pouco mais de atenção e contato com os assinantes do canal, vez que o tempo anda exíguo para atender a comentários e afins. Até aí, tudo bem. Louvável.
Mas não foi com tanta surpresa que percebi uma grande parcela de perguntas de cunho pessoal, quiçá intrusivas e o pior, largadas com absoluto tom de normalidade. Perguntas que só deveriam ser feitas a amigos antigos, a familiares próximos, ou proferidas por fiscais do Imposto de Renda.
Não penso que essa falta de “Simancol” seja responsabilidade única de quem faz as perguntas. Existe um contexto cada vez mais abrangente de ode ao improfícuo e ao desnecessário em nossas relações sociais. E essa “culpa” precisa ser repartida.
Não são raras as vezes em que atores, músicos, celebridades ou pseudo celebridades, dão azo à intromissão em suas vidas particulares. Incentivam o contato impertinente, as sugestões descabidas, as propostas deletérias. Por interesse e conveniência. Menos raros ainda, são os momentos, em que cansados da intromissão que outrora cultivaram, se tornam arredios ou se vitimizam justamente pelo "excesso de exposição".
Eu compreendo que estamos carentes de exemplos, de modelos. Nossos políticos são os piores, nossos jogadores – antigo orgulho nacional oriundo de conquistas que pretensamente nos redimiriam de nossas fraquezas – são, via de regra, analfabetos funcionais. Nossa música ganha cada vez mais repercussão pelas rimas fáceis, escatológicas, pela qualidade duvidosa. Nossos educadores, cientistas, pesquisadores, mal são lembrados.
Os programas de auditório calcificam apedeutas nas telas, glorificam asininos bombados, espalham que leitura e erudição é absolutamente secundária em um universo que santifica o dinheiro e a fama, ao arrepio do conhecimento e do estudo.
Não me entendam mal, cada um é livre para gostar do que quiser, desde que não encha o saco do outro. Podem ouvir “Lepo Lepo” o dia inteiro. Sério. O dia inteiro. Os ouvidos não são os meus. Mas o que quero discutir e trazer à balha é: não seria mais produtivo se analisar o porquê do sucesso de tais excrescências antes de exaltá-las? Não é melhor isso à anestesia ou hipnose sonora? Pensar acerca do fenômeno da fama vulgar e suas consequências em si. De seu real valor, se é que existe algum. Se existe, de fato, talento por trás da propaganda?
Não seria mais interessante, para todos, quando houvesse uma oportunidade, perguntar sobre a obra da pessoa a quem se admira - seja ela quem for – do que se perquerir qual foi o café da manhã por ela degustado? Ou onde o "ídolo" vive, ou quando acorda, ou se prefere Claro a Tim? A crase sanguínea do ponto que agora levanto é: QUE PORRA INTERESSA ISSO?! O QUE IMPORTA A VIDA DA PESSOA EM SI?! POR QUE QUERER SABER SOBRE O QUE NÃO TEM NENHUMA RELEVÂNCIA FORA DA MEDIOCRIDADE DO COTIDIANO?!
A rotina de vida da pessoa, suas abluções diárias, só interessam a ela e com quem ela escolhe para dividir sua intimidade. Tenha juízo, tenha noção, seja crescidinho. Não ajude a fomentar uma geraçãozinha de "stalkers", que acredita que é seu direito saber tudo sobre seu objeto de afeto. Que parvos que são, já se julgam "miguxos" desde sempre. Que já podem sentar na janela, só porque curtem. Vamos amadurecer, por obséquio?

“Ah, mas fulaninho é pessoa pública”. Sim, se esse fulaninho deu margem a esse tipo de inserção em seu cotidiano, ele que se foda. De verde e amarelo. Mas será que são todos iguais? Sério? Sejamos justos.
Acho natural que se pergunte a um burrico qualquer, desses paridos às dúzias por realities shows e vendidos a preço de ouro por tvs coalhadas de LIXO, quantas abdominais ele faz por dia. Que se questione o quanto de silicone foi posto para encher os seios de mulheres vazias que “abundam” em revistas publicadas para gente com Q.I. de dois dígitos. Afinal, o que mais se poderia indagar? O quê sairia dali? Não se vai esperar que esse pessoal seja capaz de dividir o átomo, não é mesmo? Mas realmente, está todo mundo na mesma cesta? Ou apenas é interessante que se ponha todo mundo na mesma cesta? Interessante para quem? Quem está enchendo o reto de dinheiro enquanto se induz a população a fazer as perguntas erradas? Na dúvida, nivela por baixo. 
E aliás, quem curte o que é fácil, tem mais é que pastar mesmo, me desculpe. Já perdi as esperanças faz tempo. Quer consumir bosta e ainda rir com com os dentes sujos, “suit yourself”. Aos coprófagos, minhas sinceras estimas de "bon voyage". Mas por outro lado, se você pertence ao lado bom da força e fecha com o certo, vamos botar a cuca para funcionar. Vamos ampliar nossa curiosidade, nossa fome POR IDEIAS!
O meme já urra, pertinente: “pare de fazer pessoas estúpidas famosas”! E eu completo, “e pare de cuidar da vida dos outros”. Sim, é valioso se preocupar com o bem estar do próximo, o que é diferente. Mas se for o caso. Ou você acha que se “preocupar” com o outro é diminuir a velocidade quando você vê um acidente na estrada? Isso não é preocupação, é morbidez. Preocupação é parar para retirar o ferido das ferragens.
Gente, foda-se a Marquezine. Sério. Foda-se a Marquezine! E junto com ela vá o Neymar, o Bieber, a Selena, a Anitta, o gol em impedimento repetido 47 vezes, a Carolina Dieckman, o vencedor do BBB (ainda existe essa porra, né?) e o Sertanejo Universitário. F-O-D-A-S-E! Foda-se o castelo e a banheira de Caras e o Paulo Coelho dentro dela. Quando mencionarem essa galera, finja que não ouviu e salve uma criança na África. Você não é gado e o que eles te oferecem é pasto. Simples assim.
Quero saber da obra. Do trabalho. Das ideias. São boas? Relevantes? Por quê são? Sim, por quê o são? Por quê vendem ou por quê são boas? E não me venha com relativismo. Existem coisas ruins e coisas boas independentemente da minha ou da sua opinião. Paremos com a hipocrisia que justifica o conforto. Ou alguém aí acha que o nazismo foi bom? Tá, faz o seguinte, deixa o Serenata de Amor e come o Caribe da próxima vez.
Essa volta toda, meus caros amigos, foi só para deixar claro que, por vezes, perdemos genuínas oportunidades de amealhar cultura, conhecimento, ao abdicarmos das perguntas ou questionamentos produtivos em detrimento da pobreza intelectual e da “palhaçadinha” infantilóide da fofoquinha viciada de fundo quintal. Fofoca não é "informação". Fofoca é lixo. Te dizem que é importante, mas não é.
Admiro inúmeras pessoas. A abissal maioria delas já morreu faz muito tempo. Mas imagino que se houvesse a incrível oportunidade de perguntar a algum desses incríveis seres humanos como eles chegaram a certas conclusões a respeito de determinados assuntos, como foi o processo criativo empregado, quais foram as influências que os levaram a serem o que foram, não enterraria esse momento querendo saber se ele prefere ovo frito ou cozido. Pegaram a maldade? Então…é isso, caramba!
Por mais que nossa curiosidade, resultado de admiração (em alguns casos é patologia mesmo, não se engane), seja compreensível, é possível e importante domá-la por um bem maior. E tal bem reside na direção ao conhecimento, na verdadeira ajuda para sua vida que uma pessoa a quem você curte, pode compartilhar pelo que construiu com talento e inteligência.
Sendo assim, quando for o caso, se a oportunidade surgir, faça cinco, dez, vinte perguntas. Mas TODAS elas sobre as ideias que tais pessoas que você admira, tiveram. Sobre a fagulha criativa, sobre a benção intelectual, sobre suas motivações no caminho do saber, sobre o norte no amealho da sapiência. Esqueça o infrutífero, o supérfluo, deixe de ser bobo. Se for para não caminhar para frente, é melhor chupar um picolé, comer um brigadeiro, olhar para o céu despretensiosamente a fim de tentar prever a chuva que talvez venha. Tudo isso vale mais do que saber qual é a marca do carro novo do garoto propaganda da vez.
Ei, senhor Umberto Eco...tinteiro ou esferográfica? Grato.




Perguntas que, se deixar, eu passo a vida respondendo:

1) Como você lê tão rápido?
2) O que são esses papeizinhos colorido que você cola nos livros?
3) Qual a sua edição d'Os Miseráveis?
4) Vai ler Divergente?
5) Quando sai o vídeo sobre Percy Jackson?


1 e 2) a resposta para as perguntas de número 1 e 2 estão neste vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=67xT2EA5STk

3) Tenho duas, ambas da Cosac Naify - a de capa preta e roxa é de 2011 e
a que eu tenho em dois volumes é de 2002

4) Acho que não, hein...

5) Em geral, não respondo perguntas que comecem com "Quando...?"
(o motivo está explicado neste vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=yQmJ8gNQtIk)
Prefiro responder com o bom e velho "Quando estiar." Só os fortes entenderão.
Mas, a resposta a essa pergunta é: assim que eu terminar de ler o quinto volume, ok? Estou no quarto volume, falta pouco, falta pouco.....

Amor e Cheesecake (por Hpcharles)


 
Acredito que ninguém, com o mínimo de esclarecimento, duvide que nosso entendimento e filosofia a respeito do amor romântico tenha sido moldado, desde a infância, pelas histórias de príncipes e princesas, pelas comédias românticas e pela propaganda.
Nessas esparrelas, quase que invariavelmente, a mulher é frágil, dependente, e NECESSITA para ser feliz, de um homem que a resgate. A resgate de sua própria vida, já que ela é apresentada sempre como incompleta, entediante ou até insignificante. O pé da princesa deve caber no sapatinho para que ela seja escolhida. O que acordaria a virtude feminina em toda a sua plenitude, é o beijo masculino, que caso não seja concretizado, consignará sono eterno.
Se alguém acha que isso é estorinha antiga, é porque vive em Marte e não ouviu falar de “Crepúsculo”. Sim, Crepúsculo. O sucesso estrondoso de um livro abaixo do medíocre e que foi seguido de uma franquia de filmes piores ainda, demonstra que essa mesma mentalidade, formada bem lá atrás, foi perpetuada geração após geração.
Nessa excrescência juvenil, a protagonista é acometida de um amor tão doentio, que não encontra sentido em sua vida sem ser ao lado de um vampirão afeminado que brilha ao sol. Ela não come,  pouco dorme e, quando dorme, tem pesadelos. Se afasta de todos por meses. De sua família, amigos e escola. Abdica de sua vida e projetos. Pensa em suicídio com frequência, acredita que não há mais sentido em prosseguir. É feita de gato e sapato e, ainda assim, permanece subserviente, aguardando o retorno de seu “salvador”. E tudo isso é apresentado no livro e no filme como algo a ser louvado. A ser exaltado. Fico imaginando quantas meninas sonharam em ser a Bella. Que mensagem, não? O quão pérfido, o quão estúpido é isso? O quão isso se parece com DOENÇA? Daquelas tratadas à base de tarja preta e oração forte.
Não obstante, a tola ficção vendeu como água no deserto. Arrastou multidões de adolescentes aos cinemas. Seus atores principais viraram estrelas de primeiro escalão em Hollywood. Tudo em atendimento ao amor psicótico. Que também precisa, como se não bastasse já ser ruim o bastante, ser perto do impossível. Quanto mais difícil melhor, né?
Essa é outra estultice que foi igualmente difundida. O amor, se for calmo, remansoso, tranquilo, simples, deve ser descartado. Mais uma herança da nossa cultura judaica-cristã? Aquela mesma que transformou o prazer em pecado e, sobretudo, o sofrimento em virtude. É bem provável que exista o dedo dela aí.
Reparem como nessas estorinhas e nas comédias românticas, o casal, antes de concretizar o seu “destino”, precisa se foder de verde e amarelo. É ou não é? Se não sofrer, não apanhar da vida, não ultrapassar a tudo e a todos, não vale porra nenhuma. O cara não pode conhecer a menina, tomar um café, conversar sobre a vida, ir a um cinema e dar tudo certo? Claro que não, cacete! Que merda de relação é essa onde não há sofrimento? Como se contas, doenças, engarrafamento, seu time que está uma merda, não fosse o suficiente.
Pois é, é justamente esse lixo de “patologiazinha” que é vendida e comprada sem se olhar a embalagem, todos os dias. O que prevalece é esse pensamento pequeno burguês, de que para o amor ser legalzão, é preciso uma mulher submissa a ser resgatada por um homem imbecilizado e acomodado em seu, na maioria das vezes, conveniente papel de salvador. Esse é o amor que foi institucionalizado.
Pois eu lhes digo, senhores e senhoras, e desculpem o meu francês: o caralho que isso é amor! Amor não é isso. Pode ser no comercial da Doriana. Mas não no mundo real. E não é porque o amor não se consigna no que você sente, mas sim no que você faz para quem você diz que sente. Qualquer um diz que ama. O mais estúpido dos homens é capaz de dizer que ama alguém. Isso é com ele, importa só a ele. O que importa ao outro, é a atitude em direção ao que afirma.
Seu comprometimento de soma, de compreensão, de parceria. Sua clarividência de que o amor fora das telas não impõe cavalos brancos, viagens transatlânticas ou pérolas negras. O amor verdadeiro é mundano e palpável, sem ser rasteiro ou pedestre.
Pessoa dizia que “não há mais metafísica no mundo senão chocolates” e digo que toda a metafísica também não alcança o sentimento ultra genuíno oriundo de se correr até farmácia a fim de buscar, para quem se ama, o absorvente inesperado em uma noite qualquer, de um dia qualquer.
Amar não é se sobressair, não é flertar com o impossível, não é despertar o outro com um ósculo enfeitiçado. Amar é o contrário disso. Amar é abdicar sem se submeter. É conhecer o pior do outro e saber que foi, também isso, que o fez amar. Amar não é comer junto o faisão pantagruélico, é deixar o último pedaço da cheesecake de fim de semana devorada "em condomínio", para o parceiro. Quanta metafísica existe aí, meus caros amigos? Me digam.
Amar não é construir um pedestal para o seu amor, mas estar perto para evitar a queda, caso ele venha a cair lá de cima por uma vicissitude ordinária da vida. E temos a responsabilidade de fazer isso porque já o pusemos lá em cima faz tempo, mesmo que ele nunca tenha pedido. E também porque dizemos que amamos, mas isso não fará diferença se não agirmos no diapasão do que fora prolatado ou prometido.
Eu fico cada vez mais pasmo com o que fazem com o amor nos dias de hoje. O vulgarizam, o tomam por paixões cotidianas, cospem-lhe nas fuças, pisam em cima...e depois culpam a ele e ao outro. O "amado". A maldita "culpa" nunca é nossa. Quando não deu certo, dizem que é supervalorizado. Que não é tudo isso. Ora, e o das revistas e cinemas não é mesmo. Mas ele nunca teve a pretensão de sair das telas. Você é quem acreditou nisso. Porque sempre te disseram que o amor, para valer a pena, tinha que ser de um certo jeito. Que tinha que vir em uma latinha. Pior ainda, quem sabe você até já o teve mas não percebeu. Por o considerar muito comum, trivial, “sem glamour”. Por não ter sabor de Mentos.
Que bobagem, o amor tem vários sabores. E aí está toda a graça. Ele se reconstrói na conversa e não no sexo. O sexo não impende amor, essa é outra mentira vagabunda acerca dele. Mais uma mentira. Para o sexo, só é preciso tesão, o que é muito diferente.
No amor, o “tesão” é decorrente de muito mais do que o que se vê. Muito mais. É uma palavra atirada. Uma mão apertada. Um telefonema sem motivo. Um olhar só seu. Onde há necessidade de sofrimento aí? É menos amor por ser em paz? O sofrimento é a vida quem traz e não o amor. Se o seu “amor” está te trazendo sofrimento, ele é tudo, menos amor. Você é que acha que é amor. A culpa é sua, não bote na conta do amor.
O seu amor deveria estar ali para te ajudar a atravessar a vida. Não para construir muros. E ele é fundamental porque carregar sozinho o fardo da existência é muito difícil, quiçá insuportável. É preciso dividí-lo, comungá-lo com alguém na estrada. E é isso que queremos. É o que deveríamos querer. E não sermos príncipes de princesas entorpecidas, fragilizadas, mumificadas em contos infantis. O amor, pelo menos aquele no qual acredito e ao qual reverencio, não avaliza e muito menos aprecia, meninas aprisionadas em corpos de mulher. 
Amar é olhar para quem se ama e imediatamente desejar se tornar uma pessoa melhor. É empurrar o parceiro ladeira acima, é entender que o tombo, se acontecer, machucará os dois e aprender que o remédio precisará curar a ambos. Amar é um exercício de desprendimento do narcisismo que nos engessa, nos afastando do verdadeiro mérito que poderíamos ter em nossas conquistas, se descobríssemos que também somos o resultado do que as pessoas a quem amamos fizeram de nós. Amar é, sobretudo, deixar o amado livre para que seja cada vez mais dele próprio, sabendo que, só assim, também será cada vez mais seu.

Entre a alienação voluntária e a depressão compulsória (por Hpcharles)


  
  
                                          “Cada um será tanto mais sociável quanto mais pobre for de espírito, e, em geral,  mais vulgar (o que torna o homem sociável é justamente a sua pobreza interior). Pois, no mundo, não se tem muito além da escolha entre a solidão e a vulgaridade.”
                                                                                                                                                     ―Schopenhauer

                            “Qualquer homem que, aos 40 anos, não é misantropo, nunca gostou dos homens.” 
                                                                                                                                                   ―Nicolas Chamfort


Outro dia um amigo me confidenciou, resignado: “disse à minha mulher que não pretendo fazer mais nenhuma amizade. Estou feliz com as que tenho”. E prosseguiu, confidenciando que sua esposa havia achado horrível aquela assertiva.
O que talvez a moça não tenha percebido, é que a afirmação possuía mais conexão com o que seu marido sentia em relação à sociedade atual do que propriamente com a suposta indicação de reclusão ou algo que o valha.
E “horrível”, a declaração também não foi. Para alguns parecerá triste, mas garanto que não é uma visão sem fundamento ou justificativa. Padeço no mesmo dilema. Talvez pela idade, talvez por cansaço, talvez por desânimo, talvez por um pouco de cada.
Nunca neguei que me incluo na classificação filosófica dos pessimistas. Não sou afeto ao imobilismo e muito menos ao conformismo, do qual tenho pavor, tendendo a me dirigir, cada vez mais, por coerência e por absoluta conveniência, para o escapismo. E faço isso, assim como outros tantos, porque não enxergo no cenário a meu redor, qualquer sinal ou possibilidade de mudança no que concerne às relações interpessoais. As trocas, sejam de caráter intelectual ou oriundas de gostos em comum, estão cada vez mais ralas, mais escassas. Mas ei...o problema pode estar muito bem em mim e não nos outros. E de fato torço para que esteja.
Dito isso, penso que, por estrada vicinal, tive sorte. Tenho poucos mas bons amigos, com quem consigo manter a troca de ideias em alerta, tecer um bate-papo ágil, eivado com concordâncias divertidas e o melhor, com discordâncias saudáveis.
Minha esposa, que também é minha melhor amiga, é fonte inesgotável – ao que parece – de interessantes reflexões e dicas. Sejam de livros, músicas ou filmes. Resta ainda, uma meia dúzia de dois ou três náufragos em meu círculo, com quem consigo traçar um conversa despolarizada, fugindo de padrão monolítico, variada em temas e direções.
Claro que possuo inúmeros “conhecidos” e um leque de “colegas” com quem posso tergiversar sobre o resultado do jogo do fim de semana. Mas todos sabemos que não é a mesma coisa. Não é a isso que me refiro. Minha constatação se direciona a algo que não é o assunto óbvio, trivial. Preciso me sentir desafiado. Não tenho interesse em vídeo cassetadas ou em saber quem é o “líder” da semana.
Não tenho interesse em pessoas. Mas anseio por conhecer seus trabalhos, suas ideias. Não me interessam Anitas, Ivetes, Ronaldos, bem como excrescências musicais ou visuais, ou programas de auditório e realities shows. Não me atrai quaisquer exaltação ou culto a celebridades. Não acredito que o futebol, mesmo aquele praticado pelo time que torço, seja indispensável para a minha vida ou para a saúde da nação. Desprezo irremediavelmente noticiários catastróficos, catárticos ou apelativos. Uso apenas uma rede social, que é baseada mais em fotos, me permitindo visualizar com rapidez os equipamentos de música de que gosto e os livros e cotidianos de algumas pessoas que me parecem ser bacanas. Mas não me iludo com essa teia também. Ela é frágil.
Fora isso, admito, de peito aberto, que prefiro os livros, os filmes e minha guitarra, à abissal maioria das pessoas. Tv eu já não sei o que é faz anos. Só vejo os jogos do Flamengo e nada mais. Mas o que haveria a mais? Me digam. Pergunto sem ironias embutidas.
Quando entro em um shopping conto os minutos para sair de lá, tal o barulho e a ansiedade pelo consumo estampado no rosto das pessoas. Nunca entendi direito essa fascinação por shoppings. Um circo onde não há pessoalidade para se adquirir nada, onde a ideia primordial é justamente a supressão da individualidade em detrimento do varejo para a manada.
Faz tempo que esse “comportamento anti-social”, quiçá misantropo, apareceu. No começo lutava contra ele, o rejeitava envergonhado, como um judas que é culpado mesmo sem nunca ter beijado o salvador. Hoje isso mudou. Não posso dizer que tenho orgulho ou garantir que essa opção agregue algum sinal maior de inteligência, pois isso seria tolice e presunção, mas que convivo em paz com tal escolha, isso convivo.
Em uma sociedade que prima pela ambição desmedida, que aprecia a fama fugaz, que enaltece a ganância ao arrepio do bem estar, que promove a exclusão, a divisão, seja ela religiosa ou financeira, que desmerece a educação, educadores, cientistas e pesquisadores, mas entrona artistas de quinta categoria e pseudo celebridades fabricadas a granel por jornais e revistas ordinárias ou viciadas, me parece que o escapismo não é uma saída das piores.
Notei que, com o tempo, essa “alienação” não me deixou menos indignado, e nem deveria, mas pelo menos não me deprimo com tanta frequência ao abrir um jornal coalhado de atrocidades, descritas com requintes de morbidez, quase de sadismo. Não me chateio tanto quanto antes, quando, cada vez que ligava a televisão, ela vomitava mesmices, músicas para néscios, programas cuidadosamente criados para apedeutas e noticiários tão rasos e parciais, que me davam náuseas. Definitivamente isso não me traz apelo e continuo a me questionar se deveria trazer para alguém.
Que fique cristalino que isso não significa querer desconhecer ou fechar os olhos para questões e atualidades realmente relevantes no mundo que nos cerca. Mas sim, ao tomar conhecimento delas, saber onde, como e com quem pesquisa-las, compreendê-las e discuti-las. Até porque, ler notícias em Internet ou escutá-las em emissoras de tv, sem se dar ao trabalho de verificar sua veracidade ou procedência, passando imediatamente a tomá-las como verdade e a reproduzi-las como fatos é, no mínimo burrice e, no máximo, imprudência.
Sendo assim, meus caros amigos, me deparei com a questão que dá título ao texto. O que seria melhor, face ao nefasto quadro apresentado, se assim você também o enxergasse? Permanecermos atentos às trivialidades, futilidades e banalidades que nos enfiam goela a baixo todos os dias e, por consequência, ficarmos deprimidos por realmente não desejarmos “comer na mesma mesa”? Ou nos alienarmos em poucas, mas frutíferas relações, com trocas genuínas e profícuas? O que é mais produtivo? O trânsito pedestre, catando as migalhas largadas pela mídia profissional, ou a abdicação consciente da coprofagia perpetuada e incentivada pelos "sapientes" meios de comunicação? Alienação voluntária ou depressão compulsória?
É claro que para outros, não para mim pois não as vislumbro, pode haver uma terceira ou quarta alternativa. As experiências e entendimentos aqui narrados são anedóticos, pessoais, não precisam valer para mais ninguém. No entanto, acho justo e relevante que se pergunte: será que realmente se abdicar dessa realidade propagandeada, cuspida diariamente nas telas e jornais, essa opção por se limitar a amizades escolhidas a dedo, ao arrepio do contador de "amigos" que varia no compasso de “clicks” de mouse, a preferência pela companhia de bons livros e de magníficos filmes cheios de ideias e referências construtivas, faria de mim, efetivamente, um “alienado”?  Essa “misantropia calculada”, essa “anti socialidade ofensiva”, essa fuga à regra, “in casu”, contém coeficiente bastante de patologia para ser condenada?
Caso positivo, e em nenhum momento nego que não, me digam, por obséquio, qual é a virtude de quem consome lixo? De quem abana o rabo sem sequer saber quem é seu dono. De quem não faz a menor ideia aonde está o galo ou por que ele canta mas, ainda assim, adora ser acordado com um cacarejo. Poderá ser alegado que são mais felizes. Sim, é possível que sejam. Mas uma pergunta ainda persiste: quem é o verdadeiro alienado?

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