Não chore por nós, Alemanha (por Hpcharles)


 "O nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da humanidade". 
                                                             (Albert Einstein)
Ontem, após a histórica goleada imposta à seleção brasileira de futebol, assisti a um curto e interessante depoimento de uma das maiores estrelas do time alemão, o jogador Schweinsteiger. Com feições de quem soprou as velinhas do bolo antes do aniversariante, o alemão disse, constrangido, que lamentava a maneira como as coisas aconteceram, dando a entender, em síntese apertada, que o castigo foi demais.
Para quem assiste futebol há algum tempo não foi difícil perceber que o escrete alemão, ainda no primeiro tempo, “tirou o pé do acelerador”. Entenderam que não seria necessário torcer a faca, o caixão já estava fechado. Sabiam que o placar, naquele momento, já seria por demais doloroso para os torcedores brasileiros. Acho justo supor que, se quisessem, poderiam ter chegado aos 10 gols tal a facilidade encontrada. Foi um ato de respeito. Simples assim.
Foi um ato de respeito de uma seleção que sempre mostrou, durante toda sua estadia, ser genuinamente afeta ao Brasil. Foram generosos, amáveis, solícitos ao povo ansioso por autógrafos e profissionais com os jornalistas. Mostraram, acima de tudo, como se portar fora de seu país, já que durante esse pequeno período de competição, não passavam de ilustres visitantes. E nunca se posicionaram como mais do que isso. Jamais transpareceram empáfia ou arrogância. O problema é que quem recebe também precisa demonstrar respeito com quem é recebido.
E será que oferecemos a cordialidade que se impõe àqueles incumbidos de desempenhar o papel de anfitriões? Que digam os chilenos que, durante a execução de seu hino, tiveram que cantá-lo junto com uma tremenda vaia, em uma atitude lamentável de boa parte da torcida brasileira presente no estádio. Por obséquio, não me venham alegar a invasão do centro de imprensa do Maracanã e suscitar revanchismo. Fica pior. Não quero me nivelar por baixo, mas por cima. O Chile que se entenda com os seus.
Ou então, o que falar dos xingamentos, das palavras chulas dirigidas à Presidenta do próprio país? Em que pese a contrariedade política ou ideológica, é absolutamente reprovável a atitude agressiva e destemperada que foi, inclusive, transmitida para o resto do mundo. Como se ofender resolvesse a situação ao arrepio do voto consignado. É nas urnas que se demonstra insatisfação com efeito prático. Mandar “tomar no cu” apenas expôs como anda requintado o exercício de nossa cidadania. Imagino o que pensou a imprensa estrangeira ao escutar os polidos elogios dirigidos às tribunas. Devem ter pensado também no quão irônico é vaiar quem avalizou a realização do torneio e, ao mesmo tempo, pagar ingresso para ver a peleja tomando uma "Bud by Fifa". Sim, naquela mesma "Arena" cuja construção era desnecessária e impertinente. É cristalino que esse comportamento não traduz a totalidade do povo brasileiro, mas é  indicativo de que há algo errado também conosco e não apenas com o governo.
Desde o início torci para a Alemanha e não fiz o menor esforço em esconder isso. Minha família possui inúmeras ligações afetivas com o país germânico e minha irmã lá reside faz algum tempo com o marido e com minhas sobrinhas. Aprendi a admirar o país, sua capacidade de reconstrução. Sua organização, competência e seriedade administrativa. O apego ao cuidado com os mais velhos, traduzido em um esplêndido sistema de saúde e aposentadoria. A incrível valorização da educação acadêmica que garantiu 103 prêmios “Nobel” em sua história. E tudo isso sem deixar a simpatia e a cerveja de lado. Ademais, não me recordo de, em nenhum momento de minha vida, ter assinado quaisquer contrato de brasilidade. Tampouco optei por nascer no Brasil. Até onde sei, é permitido torcer para quem se quiser. Ou não é? 
Pois é de se ficar em dúvida tal a insânia nas redes sociais. A maioria, evidente, praticada por torcedores “bissextos”, cujo nacionalismo só dá as caras justamente quando é menos necessário, ou seja, nas eventuais competições esportivas. Eivados de patriotismo obtuso e desvairado, batem pezinho, acreditando que torcer para a seleção ou vestir a camisa da Nike os faz mais brasileiros. O pior é que, hipnotizados pela televisão, babando como bovinos a pastar, não percebem que estão sendo usados. Eles e os jogadores. Mas os jogadores ganham para isso. Muitíssimo bem. E sabem de antemão que, eliminados ou não, suas lágrimas, de alegria ou tristeza, serão rapidamente secadas pelo sol de um “resort” qualquer, de uma ilhota qualquer, com uma vista paradisíaca qualquer. Dirão que a vida segue. E segue mesmo. Só que para uns segue no ar condicionado. Digital. “Bi Zone”. Entenderam, amiguinhos? Para quê brigar?
A seleção brasileira NÃO é o Brasil e a Copa não é uma guerra entre nações. É apenas um torneio de futebol. Importante em nossa cultura, admito. Mas não é fundamental. Fazem parecer que é, mas não é. Assim como não era o leque de estádios construídos com dinheiro público, em locais onde não existe demanda para suas construções. A seleção é, na verdade, um amontoado de jogadores que vive uma realidade totalmente distinta de quem está nas arquibancadas e que, esporadicamente, se reúne para uma competição ou outra. Acabado o certame, voltam ao "duro" cotidiano de seus clubes. A abissal maioria deles, europeus. Não alego demérito, apenas aponto um fato.
Claro que o ambiente é minuciosamente trabalhado para o truque funcionar. A mídia, a propaganda, conspiram e batem forte, tudo é verde a amarelo. Os apresentadores, narradores e comentaristas, desempenham bravamente seu papel, se tornando filósofos e profetas. Aliás, como deve ser bom ser comentarista esportivo para só dizer coisas inteligentes na TV, não é mesmo?
A cobertura é implacável, os chavões inéditos, a vitória essencial à vida. É o que vendem. Em prestações. Mas vou contar um segredo. Não é. Nem de longe. Durante toda minha vida ouvi essa cantilena. Essa mentira. Desde sempre, aqui no Brasil, se transferiu ao jogador da seleção o condão de redentor. De redentor de tudo aquilo que nunca fomos. De todos os nossos desejos e aspirações não realizadas.
Os jogadores brasileiros, ainda mais durante uma Copa, são alçados à cruz como 11 nazarenos tupiniquins. Os cravos estão nas chuteiras e não nos pulsos, mas não se engane, a missão supostamente foi dada por deus e há de ser cumprida por heróis. Para isso, basta que defendam pênaltis ou que balancem as redes. É deles a obrigação de nos catapultar metafisicamente ao “paudurescente primeiromundismo”. Aquele mesmo que nunca conseguimos atingir em outras instâncias que não sejam as dos gramados. Tanto é que nossos hospitais ainda carecem de equipamentos, as escolas de material básico e, usar o transporte público, se constitui em verdadeira Via Crucis, mas não se pode mais criticar a nossa grama. Não a grama! Agora nossos estádios usam a “Celebration”, uma relva híbrida, importada da Austrália. Foda “bagaraio”. Um tapete. Tá pensando o quê, porra?! Mas gente...sério, é tudo circo. Tudo ilusão.  
A Copa só pode ser vista como uma competição esportiva onde poucos ganham muito dinheiro e prestígio e muitos pagam por isso. Entendida a questão, não há problema nenhum em se divertir. E não é que o torneio não deva acontecer, mas fazê-lo aqui foi inoportuno e absolutamente prescindível. É uma questão de prioridades, entendem? É de bom alvitre ressaltar que, para efeito de contraditório, não é relevante se alegar o quanto foi gasto, vez que qualquer quantia mal gasta, ainda é uma quantia mal gasta. Quaisquer real que não fosse oriundo de iniciativa privada, já deveria ser suficiente para obstá-la. Disse isso antes e repito agora que a anestesia passou e o dente vai voltar a doer.
O que deve ficar de tudo o que aconteceu após o vareio de bola, é a lucidez dolorosa de que nem mais os melhores no esporte bretão nós somos. Mas há um lado bom? Sim, há! Aquele que te desperta com um soco nas fuças para te dizer, “E daí? Será que o futebol ou uma derrota esportiva deveria ser tão importante em um país que tem tanto a fazer no campo das necessidades sociais mais basilares?”
O futebol brasileiro irá se recuperar da acachapante goleada que lhe fora imposta. Não se esquecerá jamais e isso é positivo de certa maneira, mas dará a volta por cima porque sua capacidade de fabricar grandes jogadores é estupenda. Tão notória e evidente que fez até os carrascos do time adversário lamentarem, incrédulos, o feito que haviam realizado. O futebol do Brasil, meus caros, está longe de ser um problema real para sua população. O que falta é entender que ele está mais longe ainda de ser a solução. Para qualquer coisa que seja. Futebol, para quem não vive dele, deve representar cerveja quente e cachorro-quente frio aos domingos. Deve abastecer o assunto na conversa com os amigos e a zoação no dia seguinte. Tristeza? Concedo meia a hora a ela quando meu time perde. Depois lembro do mundo real e das contas que entrarão por baixo da porta.
E o orgulho?! Orgulho? Aquele sentimento controverso, por vezes mesquinho e que nunca vi resolver a vida de ninguém? É esse? Bom, se for para se ter orgulho, deveríamos nos focar não só no "time" alemão, não é verdade? Que tal mirar no IDH dos caras, por exemplo? É só uma sugestão. Uma meta. Não digo que seria preciso nem chegar ao 5o lugar que possuem, mas que tal sair de 85o para uma posição melhor. Se cuida Azerbaijão, estamos na sua cola! Na grama já conseguimos. Os estádios, dizem, estão lindos. De vez em quando um viaduto cai na cabeça de um desconhecido qualquer e o mata, mas acontece, não? E o Neymar? Está sendo bem tratado? Está sem dor? Beleza!
Sendo assim, se pudesse, agradeceria ao Schweinsteiger e ao Müller pelas palavras de consolo e respeito dirigidas aos torcedores brasileiros. Mas mais útil e muito mais importante do que isso, é que aprendamos com eles - e aí me refiro ao país pelo qual jogam - sobre o planejamento espartanamente seguido, sobre o comprometimento com o desenvolvimento social da população ou sobre a obstinação na busca da excelência acadêmica.
Há algum tempo, mal conduzidos por seu “condutor”, aprenderam que era preciso começar de novo. Que os bons projetos precisam de muito esforço e levam anos para obter êxito. Abandonaram o imediatismo ignóbil, populista, em detrimento da vitória planejada, cirúrgica, mas não menos meritória. Descobriram, da pior maneira, que seu povo precisava mudar e abandonar antigos valores que acarretaram tragédias inapeláveis, para só então construir um novo país. 
Os alemães até hoje carregam uma ponta de vergonha ou culpa por um passado que lhes assombrará para sempre tal o tamanho da catástrofe que remonta, mas sabem que a Alemanha de outrora não é a Alemanha atual, bem como os alemães de hoje não são os mesmos de antes. Perceberam e mudaram. Para muito melhor.
Assim como eles se recordam da dor sentida ao vislumbrar sua cicatriz histórica, a goleada de ontem nunca será esquecida pelos brasileiros. Mas quem sabe, com um pouco de sorte, ela sirva para nos colocar em nosso lugar e nos apontar, por via oblíqua, o que deveria ser precípuo para nosso país. Ao lembrarmos da seleção que impingiu a pancada, sempre poderemos imaginar que algo muito mais difícil foi realizado por esse mesmo oponente que, apenas por dever de ofício, nos causou tamanha humilhação esportiva.
Destarte, muito obrigado, Alemanha. Por nos lembrar que existe algo a mais do que o futebol entorpecente, por provar que o planejamento pode vencer o "jeitinho" e que uma disputa não precisa levar à submissão moral. Obrigado por nos mostrar que é só um jogo e não a honra da nação ou a comida na mesa. Por nos ensinar como nos portar na casa dos outros. Obrigado também pelo futebol de ontem. Foi bom de se ver. Mas ainda vamos nos encontrar e vocês sabem disso, já conhecem nossa força. Portanto, não chore por nós,  Alemanha. Estamos vivos. E vamos ficar bem.

"Bis bald, Deutschland"

Dando a César o que é de Silva (por Hpcharles)


“As massas nunca tiveram sede de verdade. Elas querem ilusões e não vivem sem elas. Constantemente, elas dão ao irreal, a procedência sobre o que é real; são quase tão intensamente influenciadas pela mentira como pelo que é verdade. Tem uma evidente tendência a não distinguir entre as duas.”
                                                                                                                                        Sigmund Freud
 
Será que alguém aí, sem pedir ajuda ao Dr. Google, seria capaz de dizer o que possuem em comum os sobrenomes Pradaztki, Taketani e Silva? Lógico que não. A pergunta é quase retórica.
Mas e seu eu lhes disser que são heróis brasileiros. Heróis mesmo, de verdade. Daqueles que arriscaram a própria vida para salvar a de outros. E aí, lembraram? Já ouviram falar? Nada? Ninguém se arrisca? Foi o que pensei...
E se eu disser Júlio César? Fácil, né? Todo mundo sabe. Esse abençoado, agraciado pelos deuses, esse “herói”, hoje imaculado, é nome fácil na boca de todo país. Todos o conhecem, sabem o que fez e o número de sua camisa.
Júlio César não salvou ninguém. Defendeu dois pênaltis. Teoricamente, se não os houvesse defendido, ninguém morreria. Talvez um infarto fanático acometesse algum torcedor canarinho, mas fora isso, a vida seguiria. Famílias não seriam guilhotinadas pela ocorrência de uma eliminação precoce. As lágrimas que cairiam dos olhos vítreos, hipnotizados pela anestesia da maior competição do esporte bretão, se enxugariam rapidamente. Sem maiores consequências. A cerveja ainda seria bebida e o churrasco também seria comido. Não haveria tragédia nenhuma. As tvs, os jornais e boa parte da imprensa, chamaria de tragédia. Mas apenas porque ajudaria a vender mais e por concessão semântica. Pela mesma concessão, aliás, que se faz ao chamar um goleiro de herói.
Há pouco mais de 40 anos, no dia 1 de janeiro de 1974, o Brasil vivenciou uma das maiores tragédias de sua história. O Edifício Joelma foi devorado em chamas, causando a morte de 188 pessoas e ferindo outras 300. Muitos desses óbitos foram oriundos de pessoas que optaram por se jogar de alturas invencíveis a fim de não sucumbir de maneira supostamente pior. Entenderam o sentido mais apropriado da palavra tragédia? Dezenas e dezenas de seres humanos morrendo queimados ou poli-traumatizados se constitui em uma tragédia. Ser eliminado em uma competição de futebol, não. Desagradável, triste, lamentável? Talvez, para quem realmente se importa. Trágico, jamais.
E quanto ao “heroísmo”? Transposto o emprego hiperbólico e vagabundo da palavra, me digam qual o heroísmo houve em se defender duas bolas mal chutadas? Qual o real perigo existia ali para o nosso espartano de verde e amarelo? A bola possuía pontas envenenadas? Se a pelota entrasse crianças morreriam? A “honra da pátria” estaria maculada?
Pois me permitam apontar a distinção. O prédio localizado na Avenida 9 de Julho, 255, não possuía heliporto. Todas as pessoas que, desesperadas, buscaram o ponto mais alto do edifício, se depararam com uma laje e telhas de amianto. Um resgate aéreo teria que ser simplesmente inventado naquele local. Tudo pesava contra, qualquer planejamento se mostrava inconcebível. Mas para a sorte de muitos, a equipe do helicóptero UH-1H da FAB, decidiu por desafiar o improvável e consolidar uma tarefa quase suicida. Não havia margem para erros.

A aeronave pilotada pelo Major Aviador Pradatzki, pelo Tenente Aviador Taketani e pelo Sargento Silva, se embrenhou na ação que resultou no salvamento de inúmeras vidas. Algumas delas deixaram o edifício agarradas aos “esquis” da nave, como se imitassem um filme de Hollywood. Essa era a situação encontrada pelas equipes de resgate. Caos.
Esse helicóptero foi o único que teve participação “efetiva” na retirada das pessoas do teto do prédio. Entretanto, muitos outros heróis se constituíram na ocasião. Seria injusto, pelo que li, não fazer essa ressalva. Heróis paramédicos, heróis bombeiros, heróis voluntários, heróis anônimos, que naquele tenebroso dia, resolveram arriscar a própria vida para preservar a de tantos outros. Não ficaram famosos, não recebiam salários milionários para colocarem suas existências em risco e nem fizeram o que fizeram porque estava em jogo o “orgulho da nação”. Fizeram porque foi preciso. Fizeram porque se não o fizessem, gente morreria asfixiada ou carbonizada.
Escrevi todos esses parágrafos porque, francamente, me incomoda um pouco a distorção em que vivemos por conta de uma competição que possui fito de lucro financeiro e político e nada mais. Como se não bastassem as isenções fiscais concedidas a instituições bilionárias, à revelia do bom senso e das prioridades, bem como a construção, com dinheiro público, de estádios desnecessários em locais indiscutivelmente inapropriados, ainda se vulgariza, por via oblíqua, o heroísmo de tantos em nossa história, para conceder tal título a alguém que está longe de merecê-lo.
É de bom alvitre lembrar que Júlio César nada tem a ver com isso. Pelo menos não o vi abraçar a alcunha ou colocar a coroa. Mas, a bem da verdade, também não o vi rejeitá-la. Apenas o vi chorando, dizendo que passou por poucas e boas após falha em lance que resultou na eliminação do Brasil na última Copa. Ele que me desculpe, mas não me comove. Me solidarizaria se houvesse um problema de doença, ou algo impeditivo para seguir sua vida. Ao que tudo indica, não há. O que dizer então daqueles, liminarmente retirados de suas residências, para que se pudesse realizar um evento que está longe de ser primordial ao interesse do povo? Bom, talvez não se contarmos aí o pão e circo. Mas essa é uma discussão que mereceria um texto próprio.
E o que falar dos milhares ainda na miséria, sem acesso a educação ou saúde decente - atribuições municipais, estaduais e federais, ressaltemos - e que vivem de salário abaixo do insuficiente? Esses não serão lembrados ao fim da Copa como dignos de qualquer tributo ou homenagem, já sabemos - e não me venham argumentar que o dinheiro utilizado não seria suficiente para melhorar tal situação ou impactar significativamente o erário público, vez que mesmo 10 reais mal gastos, ainda são 10 reais mal gastos. Me parece que a questão se deslinda na prioridade e não na quantidade.

O choro dessas pessoas não remontará a heroísmo ou virtude, mas ao enorme problema social que continuamos a presenciar. Então, por obséquio, não vamos chorar junto com nosso arqueiro. Ele resta remansoso em uma concentração luxuosa, cercado de amigos e apoio. Saudável. Apto. Bem de vida – por justíssimo merecimento, diga-se de passagem – e consagrado.
Mas para quem faz questão de chorar ou encontrar heróis de verdade, basta procurar nas páginas de nossa história. Nela encontraremos professores brilhantes, cientistas e médicos revolucionários, profissionais das mais diversas áreas que, ao arrepio da própria vida, se dedicaram a de outros. Não veremos louros em suas cabeças, não serão glorificados pelas arquibancadas, não os flagraremos descendo de carros imponentes para ir de encontro a uma multidão de microfones e holofotes, mas isso só os torna mais heróis e não menos.
Vestindo suas capas de invisibilidade, disfarçados nas salas de aula, enfurnados anônimos em laboratórios, escondidos na insalubridade de nossos hospitais, teimosos mortais produzindo riqueza para os abastados, esquecidos no quintal de nossa grande nação, se encontram nossos verdadeiros heróis e artilheiros. Apenas eles podem mudar o jogo, vencer o campeonato, perpetuando o gol salvador. Um gol sem narração inflamada, ou seguido de comentários com voz emocionada, quiçá flébil. Um tento sem “tira-teima”, apenas porque não precisa.
Havia um César embaixo das traves e havia um Silva na cabine do helicóptero. Ambos tiveram sucesso no que empreenderam e foram importantes em suas tarefas. Mas apenas um é herói. Lembrem-se disso.


Lendo Proust #3 - Fim da primeira parte

Olá.

Esta é a terceira postagem do “projeto” Lendo Proust – a primeira em post escrito no blog; as anteriores foram feitas em vídeos.


OBS: Clique nas fotos para aumentá-las \o/


Bem, essa semana eu consegui terminar o segundo capítulo do livro, que é bastante extenso. Nesta minha edição (vide foto), este capítulo vai da página 75 à 235. Este capítulo também fecha a primeira parte do livro, chamada Combray.

Nessa parte do livro, o autor vai contar sobre outros personagens de Combray - conhecidos de seus pais e avós (como o senhor Legrandin), outros parentes (como a tia avó Léonie, já de idade bastante avançada, e doente), e amigos de infância meio duvidosos (como o Bloch, garoto insuportável, que “se acha” por estar adiantado na escola com relação ao narrador (principalmente em literatura) e de quem a família também não gosta, e acaba sendo proibido de frequentar a casa do narrador por destratar seus familiares.

Swann vai falar sobre a filha, em conversa com o narrador, pela primeira vez. O narrador vai descobrir que a filha de Swann conhece seu autor preferido (Bergotte; e que vontade de ler Bregotte, ali por volta da página 130, quando Proust faz uma apresentação sobre esse autor, que é um de seus preferidos (se não “O”preferido)).

Antes de apresentar Bergotte, Proust conta sobre as tardes de leituras do narrador, em que ele discorre sobre o que chamava tanto sua atenção nos livros que lia naquela época; vai falar sobre o papel do romancista, da ambientação e da criação cuidadosa de personagens e etc (página 118). São cerca de 3 páginas de meia de puro amor à literatura.


Na página 176, Proust vai contar sobre os passeios que fazia com os familiares, e acaba contando sobre os dois caminhos possíveis a se tomar ao sair da casa em Combray: o de Swann (que dá nome ao primeiro volume) e o de Guermantes (que dá nome ao terceiro volume).


Num desses passeios, ele avista uma menina, por quem se apaixona platonicamente – não ficou muito claro se aquela menina é ou não a filha de Swann. O autor diz que Gilberte, essa menina, faz um gesto com a mão (“uma prova de ofensivo desprezo”), que, segundo uma das primeiras notas de rodapé relevantes que encontrei nesse livro até agora, tem um significado X que será explicado apenas no quaaaaaaarto volume…


No próximo trecho grifado, Proust deixa claro sua desconfiança no sexo feminino ao falar da tranquilidade transmitida por sua mãe com o beijo de boa noite, e dizendo que desconfia das amantes mesmo quando acredita nelas... atente para a primeira pessoa do plural... hm...


Proust termina o capítulo, mais uma vez, de forma tão poética e delicada, como quem abre os olhos pela primeira vez ao despertar e reconhecendo os objetos ao seu redor:

“(…) e a casa que eu reconstruíra nas trevas fora reunir-se às casas entrevistas no torvelinho do despertar, posta em fuga por aquele pálido signo que traçara acima das cortinas o dedo erguido do dia.”

Eis a quantidade de marcações no livro até o momento:


Onde é que vamos parar... ?

Não temos cabo na tv da cozinha. Portanto, todo domingo almoçamos vendo tv aberta.

Tv aberta no domingo, em geral, é aquela nhaca que todos conhecemos.

De uns tempos pra cá temos deixado a tv ligada no SBT, que nesse horário trsnsmite o Passa ou Repassa.

*mini flashback*

Quando eu era pequena, assistia ao passa ou repassa. Lembro do Gugu, do Serginho Groisman e da Angélica apresentando esse programa. Pra quem nunca viu, o programa consistia em duas equipes rivais, cada uma de um colégio X (geralmente, colégios particulares de São Paulo...), que respondiam a um quiz com perguntas de conhecimentos gerais. Cada equipe escolhia duplas (um menino e uma menina, geralmente os mais CDFs da esola) para responder às questões. Caso a dupla da vez não soubesse responder à pergunta, podia passar para a dupla rival, e, se a dupla rival também não soubesse responder, eles “repassavam” a pergunta pra dupla original e eles levariam uma – torta na cara.

*fim do mini flashback*

É preciso dizer que – as perguntas naquela época eram minimamente inteligentes. Algumas eram bem difíceis. Envolviam fórmulas e conceitos de química, física, perguntas sobre literatura nacional e por aí vai...

Hoje, uma das perguntas era: “Qual o fruto do pepineiro?”. E Jesus e Maria e José – eles não souberam respondeeeeeeeeeeeeeerrrrrrrrrrrrrr................................................

Outras pérolas foram: “O panetone é títpico de qual feriado?”, “Qual o cantor da música bliblibli, cujo sobrenome é Mars?”...e por aí vai...

O que concluir?

Educação no Brasil, que já é aquela merda, agora é exposta em programa de quiz para crianças subestimadas, que não sabem fazer um O com canudo, mas que ouvem Bruno Mars (que, na minha humilde opinião, é outra merda).

Kill me now.



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