Porque Tatiana?
Quem te disse que precisamos de máquina do tempo? De teletransporte?
De pó de Pirlimpimpim? Basta cerrar seus olhos...
Quem te disse que Diadema, fica longe de Paris? Que os limoeiros de
sua “Rua dos Limoeiros” não são os mesmo da Rua Morgue?
Quem te enganou, afirmando que Poe não vive de verdade em sua
estante bamba de sonhos e conhecimento? Pesada como as pálpebras das horas de
leitura, que abasteceram sonhos juvenis.
Sonhos onde fantasmas tropeçam em armadilhas de Doyle. Sonhos
vitorianos, “séculodezoitoanistas”, vestidos de tule e cartola. Sonhos
tranquilos, com cheiro de chuva, com gosto fruta catada no pé, sonhos bilíngues.
Será que não vês Auguste Dupin cochichando com Fitzgerald bem aos
pés de tua cama? Só falta me dizer que não escutas Vivaldi assombrado pela
eletricidade batendo nas cordas, em válvulas saturadas no limite, na
margem...on “The Edge”?
Dorme minha linda! Sonha com tuas distopias, transforme-as em
utopias com um gole de chá verde.
Embriague-se em devaneios de magos de chapéu pontiagudo, unicórnios
e varinhas de condão. Mande um “alô” para Fournier. Um beijo para Anne Rice.
Uma reverência para Saramago em sua sabedoria de Algarve.
Agora o escuro que te assusta, é seu melhor companheiro. Tua
escotofobia te redime, te resgata. Embala suas canções prediletas, seus heróis
invencíveis, seu coração de menina.
Nesse mesmo breu de ermo debelado por interruptor, agora correm sem
direção, elfos, cineastas com estima de recamier e homens de caneta de pena; parnasianos,
ébrios, românticos, tuberculosos...mas VIVOS!
Na mesma medida em que seu sono de década de 50 homenageia Alice e
Peter Pan, no auge de seu Rapid Eye Movement, Stipe balbucia em seu ouvido de
edredom: you`re The One I Love...
Sonha remansosa doce garota, com cremes que restauram a pele e o
espírito, com unguentos curativos de dores na alma, com perfumes com bouquet de
eucalipto, oriundo de florestas repletas de vampiros e gnomos.
Anuncie para todos as boas novas prestidigitadas, como arautos com
megafones de cartolina, os arcanos guiados pela cartomância de tarot, irmanados
com feiticeiros de turbante, mágicos com serrotes que não cortam e ilusionistas
de cartas na algibeira.
Quem te disse que isso não acontece quando dormes? Quem mentiste
para ti? Não existe limite para literatura, não existe baú que contenha a
imaginação, cadeado que resista a arte e seus corolários de revolução, não
existe isso...só aquilo...
Mas nessa estrada de sinais paradoxais, de “passarinho me contou”,
não esqueça sua lancheira, caso tenhas fome. Guarneça a bolsa trançada de couro
com pão de ló, queijo e cogumelos. Leve “erva de fumo” caso passe no “Condado”.
Escale as muralhas de Isengard, acene para Tolkien (por mim) e lhe diga que é
um gênio.
Pela manhã, quando a ilusão começar e a férrea Linha Azul te
conduzir para um mundo onde gente sem esperança, preconceito, fome e pobreza
surgem homeopaticamente, como vilões de um conto de Stephen King e onde seres
humanos, por sua condição, não são sequer notados em suas “capas de
invisibilidade” construídas pela desigualdade; lhes dê um sorriso e diga: “é
tudo ilusório”.
Siga então seu caminho onde possa dividir seus maneirismos
anglicistas, seus comprimidos de “TAIIIILENOL”, seu “cup of tea”, atingindo
sempre “the heart of the matter”, influenciando corações e mentes. Essa é a sua
maldição abençoada.
Que Thor, Kardec, Apolo, Osíris e Jeová te acompanhem em seu
percurso. De olhos abertos, no inverso do inverso, eles são verossímeis,
bondosos, participativos, sorriem para ti e para a humanidade desconsolada,
humilhada, carente de afeto e afagos.
Quanto a mim, agradeço por me permitir participar, de mãos dadas
contigo, da grande viagem que é a tua vida. Fértil, alva, comungada, com viço
de roseira.
Obrigado pelo sorriso ditoso, pela nova jornada. Entramos no trem
por nossas próprias forças, mas é preciso que alguém nos dê o ticket.
Obrigado pelas conversas sem limites, desposadas das críticas de
maturidade de asilo, da velhice coxa e prematura. Obrigado pelo sexo tímido, pela
confiança inconsútil, pelo caráter de Távola Redonda.
Saiba que, mesmo em seu lindo mundo de fadas, de atrizes de cinema e
caminhos de estrelas, você é o porto seguro que pedi. Namorada de mãos de
pianista, coração onírico, verdadeira princesa em um mundo repleto de
mulheres...
1 bj,
HPCharles

